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De olho no futuro: escuta e participação marcam Seminário Ampliado na Justiça Federal do RS

25 de novembro de 2017 - 12:42

Os rumos da Justiça Federal gaúcha para os próximos anos foram o tema de mais uma edição do Seminário Ampliado do Planejamento Estratégico. A atividade, que aconteceu ontem (21/11) em Porto Alegre, reuniu cerca de 120 pessoas, entre magistrados e servidores de todo o estado, além de representantes de instituições como o Ministério Público Federal (MPF), a Advocacia Geral da União (AGU), a Procuradoria da Fazenda Nacional (PFN), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/RS).

Promovido a cada dois anos, o seminário tem o objetivo de apresentar cenários que começam a se desenhar para o futuro e promover a reflexão sobre a atuação da JFRS – seu papel, sua estrutura e processos de trabalho, sua forma de gerir recursos humanos – frente às tendências e desafios que vêm pela frente. Na abertura da programação, a juíza federal Daniela Tochetto Cavalheiro mencionou propostas bem sucedidas, como a criação da Central de Consultas e Convênios, que resultaram de projetos gestados no Planejamento Estratégico. A diretora do Foro da Seção Judiciária também destacou a participação, pela primeira vez, dos chamados “atores externos”que fazem parte do dia a dia institucional.

Mulher jovem loira, em pé, fala ao microfone em frente a três mastros de bandeira.

Diretora do Foro agradeceu a participação de todos, atores internos e externos

As organizações e o futuro

Dentro do tema proposto, a primeira palestra do dia tratou das organizações e o futuro. Em uma fala desestabilizadora, formatada para instigar reflexões, o sociólogo e mestre em Ciência Política Domingos Armani iniciou relatando a existência de uma certa desconexão, detectada em pesquisas, entre a natureza das organizações, as necessidades da sociedade e a realização das pessoas. “Para onde vão as instituições? As organizações existentes estão nos servindo – seja no campo da economia, da política, o próprio sistema de Justiça?”, questionou.

Segundo Armani, as instituições atuais foram forjadas em um contexto de pós-guerra, sob uma forma de atuação fordista e uma lógica cartesiana. “O problema está na visão de mundo que sustenta as organizações, que não permite romper com o paradigma convencional e de formas mecânicas de pensar, onde se enxerga somente as partes; e as pessoas e processos são vistos como engrenagens”, disse. Para o palestrante, a adaptação aos novos tempos é inevitável e exige mudanças. “É preciso adotar uma visão mais holística, sistêmica, orgânica, integral. A regra deve ser a conexão, a interação, sem controles muito rígidos”, comentou.

Vistas de costas, diversas pessoas acompanham a palestra, enquanto um homem de cerca de 50 anos fala ao microfone em frente a um telão

Para Armani, as entidades estão em constante movimento

As estruturas organizacionais do futuro, portanto, seriam pequenas em estrutura, com pessoal qualificado e alta performance; com espaços físicos acolhedores e sem demarcadores de status; com alta flexibilidade em relação ao tempo e à forma de trabalho. Nesses locais, as estratégias devem emergir da inteligência coletiva e pela interação de grupos autônomos, onde as lideranças terão papel de supervisão e orientação. Já os valores professados devem efetivamente orientar o cotidiano em todas as esferas, sendo coerentes com o que é praticado institucionalmente.

O perfil profissional também seria diferente. Discernimento e bom senso na tomada de decisões, fluência de ideias e originalidade são algumas das características esperadas. “Automação e inteligência artificial são realidades e que, cada vez mais,s eram utilizadas na realização de tarefas repetitivas e que não exijam capacidade de julgamento”, alertou. “E pra nós, o que sobra? Aquilo que diz respeito a valores, compreensão dos fenômenos, subjetividade, empatia, propósito, integralidade e realização”, listou Armani.

“Esta não é uma crise, é o fim de um ciclo de que vem do pós-guerra, da década de 1940, quando se formaram as organizações ocidentais. Estamos apenas vivendo as turbulências e incertezas do processo de transição”, encerrou.

Sustentabilidade

“Como a gente mantém o progresso respeitando valores, vidas e interesses?”. Este foi o desafio inicial proposto por Fabíola Pecce, fundadora da Pasárgada Oficina de Sustentabilidade, na segunda palestra do Seminário Ampliado 2017. Formada em Comércio Exterior, com especialização em Logística Reversa, Fabíola falou sobre o crescimento populacional, o esgotamento dos recursos naturais e as pequenas e grandes mudanças que estão sendo feitas, enfatizando as que podem ser adotadas individualmente, como forma de enfrentamento aos danos provocados ao meio ambiente.

Com base em dados da ONU, ela informou que 52% da fauna mundial foi eliminada nos últimos 40 anos. Afirmou ainda que, seguindo o ritmo atual, 100% das águas superficiais estarão poluídas até 2025 e que, no Brasil, cada pessoa produz ceca de 1,2 kg de resíduo por dia, totalizando perto de 500 kg ao ano. “Os resíduos impactam diretamente na qualidade da água, e a gente não faz água. A gente faz bomba atômica, jato supersônico, mas a gente não faz uma molécula de água”, lembrou.

Grupo de pessoas sentadas em torno de mesas redondas, observam uma mulehr jovem que fala ao microfone ao lado de um telão.

Fabíola faz parte do movimento Lixo Zero, que orienta na destinação de resíduos

Ela esclareceu, entretanto, que os resíduos apenas se tornam lixo quando não recebem uma destinação adequada, situação em que acabam sendo destinados a aterros ou câmaras de incineração. Incentivando a separação adequada dos componentes, ela assegurou que é possível reduzir os danos ambientais, movimentar a economia e gerar empregos. “O lixo tem vários cursos, relacionados à poluição, aos prejuízos com enchentes e lixões, com a propagação de doenças, com a destruição de ecossistemas e com o desperdício de matéria-prima”, relatou. “Em Porto Alegre, em apenas uma tarde de enchente em 2016, os prejuízos foram calculados em R$ 1 milhão. Já com o desperdício de matéria-prima que poderia ser reaproveitada, segundo a Agência Nacional de Águas, foi de R$ 4,6 bilhões em 2012”, ponderou.

Fabíola mostrou exemplos de empresas que utilizam matéria-prima descartada em suas produções. Uma delas é a Lycra, que já produz tecidos cuja composição possui 70% de derivados do milho. Outras tendências de mercado comentadas pela consultora são os produtos de garantia eterna, como os relógios lançados pela Rolex, e a servicificação de produtos, que oferece um sistema semelhante ao do comodato, com serviços agregados. Ela comentou o caso da Samsung, que está testando na França um serviço que possibilita ao consumidor pagar um preço fixo mensal em troca do aparelho mais moderno lançado a cada ano.

Segundo a palestrante, iniciativas como essas representam um movimento ainda pequeno, mas crescente, de mudança. “Sustentável é utilizar o que já existe”, explicou. “Consumir menos, viver com menos oferece uma liberdade imensurável. As pessoas hoje estão buscando outros valores, apostando na simplicidade. Rico é quem tem tempo de fazer o que quer”, provocou. Sobre as empresas, apontou que já perceberam que estão sendo constantemente observadas e procuram ser mais responsáveis ambiental e socialmente. “A ética é a nova moeda”, encerrou.

World Cafe

A programação da tarde foi dedicada à reflexão e ao desenvolvimento de propostas relacionadas a sete temas: sustentabilidade, equalização da demanda, comunicação e integração com outros órgãos, centralização de serviços/secretaria única, economia de recursos, atendimento ao público (interno e externo) e padronização de procedimentos. Este último assunto foi sugerido pelos atores externos, que participaram de um grupo focal preparatório ao evento.

Imagem de um auditório bem iluminado, com diversas mesas em torno das quais pessoas de diferentes idades conversam com ar de seriedade.

Rodadas aconteciam simultaneamente

O formato utilizado foi o World Cafe, onde os participantes foram divididos em mesas, cada uma delas dedidada à discussão de um assunto. Após uma rodada inicial de 30 minutos, os integrantes do grupo inicial se dispersaram e trocaram de mesa, formando novos grupos. No final de seis rodadas, as sugestões coletadas foram reunidas, unificadas e apresentadas a todos.

Os resultados do Seminário Ampliado estão sendo processados pela Seção de Planejamento e Gestão Estratégica para apresentação à Direção do Foro, à Presidência e à Corregedoria do TRF4 e serão divulgados posteriormente.

 

 

 

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